Tem um livro pequeno e teimoso do Austin Kleon, Roube Como um Artista, que afirma uma coisa óbvia e que a maioria finge não saber: nada nasce do zero. Todo trabalho criativo é uma conversa com o que veio antes. A gente pega o que funciona, mastiga, e devolve com nosso ponto de vista impregnado.
O funil de marketing em sete etapas (atração, engajamento, qualificação, consideração, conversão, retenção, advocacy) é uma dessas ideias antigas. Aparece em todo curso de marketing digital, com pequenas variações no rótulo. Bom esqueleto. Péssimo encaixe pra quem vende turismo de curadoria. O problema não é o funil. É o cliente. Porque o cliente que chega na nossa porta não é o cliente desse funil.
Ele já comparou voo no Google Flights. Já abriu três janelas da Booking em paralelo. Já viu o pacote da Decolar mais barato que o orçamento que vai pedir pra você. E mesmo assim escreveu pra agência. Por quê? Porque desistiu do auto-serviço antes de te conhecer. Ele quer outra coisa. Você precisa de outro funil.
A premissa que muda tudo#
O funil clássico de marketing nasce de uma premissa silenciosa: o produto é commodity ou quase. Seu trabalho é construir reconhecimento de massa, gerar lead, nutrir, e empurrar pra conversão. Aplica gatilho, ancora preço, monta fluxo de email, mede taxa de conversão por etapa.
Turismo de curadoria não joga nesse jogo. O cliente que paga R$ 25 mil numa viagem que custaria R$ 18 mil na OTA já decidiu uma coisa antes de te procurar: não vai comprar sozinho. Sua função de marketing não é atrair multidão. É atrair as poucas pessoas certas, criar relação antes da intenção, e desenhar uma jornada que a OTA é estruturalmente incapaz de desenhar.
Quem chega na nossa porta já abandonou cinco abas da Booking. Não está em dúvida sobre comprar. Está em dúvida sobre quem desenha a viagem que ele tem na cabeça.
Com essa premissa, as etapas mudam de ordem, de propósito e de KPI. Vamos passar cada uma.
1. Atração editorial, o que repele cliente errado#
Promoção: Paris a partir de R$ 4.999. Esse tipo de anúncio é o ponto de partida da agência que vai falir. Atrai o caçador de preço, o comparador de OTA, o cliente que liga pra negociar 5% e some quando você bate firme. Cliente caro, cliente frágil, cliente que parte no primeiro problema.
Atração editorial é o oposto. Conta o que a sua agência pensa sobre uma região, sobre um tipo de viagem, sobre o que está errado no mercado. Opinião com peso. Tese visível. Não atrai todo mundo: atrai exatamente quem ressoa com o seu jeito de pensar.
Em prática#
Vídeo de noventa segundos no Instagram com você na ponta explicando por que a Toscana em outubro pesa mais que em julho, e por que pacote padrão erra essa escolha.
Carrossel listando os cinco hotéis em Lisboa que você não recomenda, e por quê.
Texto no LinkedIn contando uma viagem em que tudo desabou e como sua equipe resolveu.
2. Qualificação brutal, não captação#
Funil clássico fala em captar lead. Coloca formulário em tudo. Ebook isca, webinar, lead magnet. Resultado: lista cheia de email frio, abertura ridícula, custo por lead que não fecha. Você fica refém de planilha que não converte.
No turismo de curadoria, cinco leads quentes por mês batem quinhentos frios. A qualificação acontece antes do cadastro, não depois. Tudo na sua presença digital precisa comunicar com clareza pra quem você atende, e pra quem você não atende.
Como filtrar de cara#
Coloque o orçamento mínimo na entrada. Se sua viagem média sai R$ 30 mil, deixa isso visível. Quem não cabe não preenche.
Construa fricção no formulário. Oito perguntas, não duas. Quem responde tudo tem intenção real.
Pergunte logo: por que você não foi numa OTA? Quem não souber responder vai voltar pra OTA depois.
Lead barato é o produto mais caro do marketing brasileiro. No turismo de curadoria, custa o triplo.
3. Diagnóstico de vida, não da viagem#
A maioria das agências erra aqui. Recebem o lead qualificado e disparam a pergunta errada: pra onde você quer ir? É a mesma pergunta que o site da Decolar faria. Você acaba de transformar sua consulta em formulário de OTA.
A pergunta certa é: como está a vida do cliente neste momento, e que tipo de pausa ele precisa? Filho recém-nascido. Sócio brigando. Casamento se reconstruindo. Pai morreu. Virou CEO. A viagem é veículo. O que ele compra é uma experiência que case com o momento.
Esse tipo de leitura, a OTA jamais vai fazer. É exatamente isso que motivou a procura. Não decepcione entregando o mesmo questionário de destino que ele preencheria sozinho.
4. Curadoria, não catálogo#
Catálogo é Booking. Catálogo é OTA. Catálogo é doze hotéis em Paris ordenados por preço. Você não compete com catálogo. Você substitui catálogo.
A proposta que sai da sua mesa precisa ser uma só. Uma. Com o seu rosto, sua justificativa, sua tese em cada escolha. O hotel não foi escolhido porque tem 4,7 no Tripadvisor. Foi escolhido porque o gerente do bar é amigo seu, e vai garantir que o filho do cliente fique no balcão a tarde toda enquanto os pais visitam o museu. Esse é o tipo de detalhe que vale mais que qualquer estrela.
Estrutura da proposta única#
Página 1. Por que essa viagem, agora, pra esse cliente. Três parágrafos curtos.
Página 2 a 5. Roteiro com sua narrativa em cada escolha.
Página 6. Investimento total com transparência de margem.
Página 7. O que você faz se algo der errado em viagem.
Esse documento é o ativo de marketing mais importante da sua operação. Vale dez vezes mais que qualquer landing page.
5. A decisão é confiança, não preço#
Funil clássico de marketing chama essa fase de consideração, conversão, decisão. Vocabulário de cliente que decide racionalmente entre A e B. Não é o seu cliente. No turismo de curadoria, a diferença entre o seu R$ 25 mil e os R$ 18 mil da OTA não passa por comparação racional. Passa por confiança.
Confiança se constrói com prova, não com discurso. Quando o cliente hesita, não baixe o preço. Faça uma das três coisas abaixo.
Conecte com outro cliente seu que fez uma viagem parecida. Cliente fala com cliente, não com vendedor.
Mostre um bastidor real. Foto da reserva confirmada. Conversa com o fornecedor. Vídeo do hotel filmado por você. Prova que a operação roda.
Convide pro escritório, ou pra uma call, e sente lado a lado pra ver o roteiro na tela. Tira do PDF frio. Coloca olho no olho.
6. Encantamento operacional, a marca viva#
O funil clássico encerra na conversão e joga o resto pra retenção ou encantamento, como se fosse uma etapa secundária. Pior framing possível em turismo. A operação é a marca. A experiência durante a viagem é o que faz o cliente voltar e indicar. É marketing rodando em tempo real, com o cliente como protagonista.
Por isso cada operação precisa ser instrumentada como conteúdo. Não pra postar tudo. Pra ter o que postar.
Áudio do cliente no terceiro dia mandado no WhatsApp da agência, sem aviso, espontâneo.
Foto do casal no jantar surpresa que você arranjou no quinto dia.
Vídeo curto do guia local explicando o que só ele sabe sobre aquela rua.
Com permissão, tudo isso vira sua próxima campanha de atração. O mesmo cliente que pagou R$ 25 mil agora trabalha pra você de graça. E adora fazer isso, porque a história é dele.
7. Recompra e advocacy#
CAC alto. Ticket alto. Ciclo longo. Existe uma única forma dessa conta fechar a longo prazo, e não é captação. É recompra. E o vetor de aquisição mais barato e mais qualificado que você jamais terá: indicação de quem já viajou.
Quem opera curadoria de verdade não tem 1.000 clientes ativos. Tem 80 clientes que pagam por 30 anos.
Por isso o trabalho de relacionamento entre uma viagem e outra vale mais que qualquer campanha de aquisição. Não é fluxo de email automatizado. É gesto.
Mensagem manual em aniversário, sem template. Você escrevendo, não o time.
Indicação de restaurante, livro, evento que você sabe que casa com o gosto do cliente. Fora de agenda comercial. Sem CTA.
Convite pra evento fechado da agência uma vez por ano. Trinta clientes top na sua mesa, um vinho que vale a noite, sem palco e sem palestra.
Cliente que volta a viajar com você, e ainda traz dois amigos, fecha a conta de marketing inteira. Esse é o KPI.
Três erros que matam a operação#
Antes do fecho, três falhas recorrentes em agências de curadoria que sangram dinheiro sem perceber.
O funil que diferencia#
O funil de marketing clássico foi pensado pra produtos escaláveis vendidos pra audiências grandes. A gente vende experiência pra famílias, casais, pessoas atravessando momentos que pedem deslocamento. Não é a mesma operação. Não pode ser o mesmo funil.
Roubar como artista é isso. Pega o esqueleto do que funciona, descarta o que não casa, devolve algo que é só seu. Sete etapas. Novo propósito em cada uma. Novo KPI no fim. Esse é o funil de quem vive o turismo dentro de um CNPJ, não no palco.
Se quiser ver isso operando ao vivo, fala com a gente. A primeira reunião é diagnóstico, não pitch.
Perguntas frequentes
O funil de marketing clássico não funciona em turismo?
Qual é o KPI principal no funil de marketing de turismo de curadoria?
Como repelir o cliente errado logo no topo do funil?
Por que não mandar três opções de proposta pro cliente decidir?
Fernando Alves
CMO e Founder Entur. Marketing e IA pro turismo. Skin in the game.
Co-fundador da Entur, primeira Escola de Negócios do Turismo do Brasil. Opera turismo de curadoria há 14 anos com CNPJ na mesa. Não ensina o que não testou.
