Tem uma narrativa que circula em marketing de turismo que diz o seguinte. O cliente moderno quer experiência autêntica, fora da rota turística, profundamente local, sem nenhum traço da vida que ele leva em casa.
Bonito como tese. Errado como observação de comportamento real.
O cliente moderno quer sim experiência diferente, mas não quer ruptura total. Quer aventura com ancoragem. Quer explorar o novo, mas com algo familiar à mão. Sua agência precisa entender essa dualidade pra parar de prometer o que cliente não compra.
Os três dados que provam isso#
80% dos viajantes apreciam encontrar itens familiares nos cardápios durante viagem
77% praticam 'turismo de supermercado', explorando corredores de comida estrangeira por curiosidade
70% dos donos de pet ajustam reservas pelas necessidades dos bichos
Onde sua agência pode estar errando agora#
Olha as últimas três propostas que sua agência mandou. Apostam tudo numa das duas pontas?
Ponta exclusivamente conforto#
Hotel internacional padrão. Restaurante turístico ao lado do hotel. Excursão coletiva com guia falando português. City tour de ônibus de dois andares.
Cliente volta dizendo 'foi legal, mas senti que poderia ter sido em qualquer lugar'. Não compra de novo. Indica pouco.
Ponta exclusivamente autenticidade radical#
Hospedagem em casa de família local. Comida típica em mercado de bairro sem inglês. Itinerário sem traço de rota turística. Transporte público o tempo todo.
Cliente volta dizendo 'foi intenso, mas exausto'. Conta a história mas indica pra pouca gente porque parece complicado.
O cliente certo está entre essas duas pontas. A curadoria que vence está em saber onde, exatamente.
O modelo de aventura com ancoragem#
Imagina uma viagem de 10 dias na Itália pra casal de classe média alta brasileira. Mais ou menos assim funciona pra cliente moderno.
Pilar de ancoragem (o que mantém o cliente confortável)#
Hotel boutique com serviço internacional, mas com identidade local. Equipe que fala inglês fluente.
Pelo menos uma manhã livre por bloco de 3 dias, com café da manhã sem agenda
Acesso a equipe da agência via WhatsApp em português pra qualquer crise
Wi-fi confiável pra checar família e trabalho
Pelo menos 2 restaurantes no roteiro com pratos universais (massas, peixe grelhado), pro caso de o cliente não querer aventura naquela noite
Pilar de aventura (o que tira da zona)#
Uma jornada de produção local com produtor que tem história (produtor de queijo de fossa em Sogliano, vinícola natural em Etna)
Refeição em mercado de bairro com guia conhecido que faz tradução cultural
Caminhada por rota não óbvia com narrativa (vias romanas em ruínas, jardins esquecidos)
Encontro com chef ou artesão fora do circuito turístico
Aula curta de algo local (pasta fresca, mosaico, ler latim em fachada)
Essa estrutura permite cliente sair da zona durante o dia e voltar pra ancoragem à noite. Explora o desconhecido sabendo que tem o conhecido esperando. É exatamente o que ele compra.
Turismo de supermercado como recurso de marketing#
77% dos viajantes exploram supermercado em outro país. Dado de comportamento que sua agência pode usar pra criar momento marcante a custo zero.
Custo da operação: zero, é só agendar 90 minutos no itinerário. Valor pro cliente: alto. Valor de marketing pra sua agência: muito alto, porque vira post espontâneo.
Pet como família ampliada#
70% dos donos de pet priorizam necessidades do bicho ao reservar. Isso não é cliente nicho. É mainstream.
Sua agência precisa ter, no portfólio, pelo menos algumas opções pet-friendly bem mapeadas. Mesmo que a maioria dos clientes não viaje com o bicho, alguns vão pesquisar pelo termo, e se sua agência não aparece nessa busca, perde a primeira impressão.
O que sua agência mapeia em cada destino principal#
3-5 hotéis que aceitam cães de pequeno e médio porte (com confirmação direta, não só anúncio)
2-3 restaurantes com mesa externa pet-friendly
1 veterinário 24h com inglês
1 pet sitter local pra os dias que o cliente quer fazer atividade sem pet
Sua agência que oferece isso pode cobrar 15-25% mais e captura cliente recorrente. Quem não oferece perde essa fatia inteira pra agência especializada.
A pergunta que muda o briefing#
Em vez de só perguntar 'quanto autêntico você quer essa viagem', testa duas perguntas combinadas.
Do que você não abre mão na rotina mesmo viajando?
O que você quer descobrir nessa viagem que não conhece?
A primeira marca a ancoragem. A segunda marca a aventura. A curadoria fica entre essas duas respostas.
Exemplos de resposta e como interpretar:
Cliente A: 'não abro mão de café da manhã calmo' / 'quero descobrir vinícolas pequenas'. Ancoragem alta, aventura média. Roteiro com 60% conforto, 40% descoberta.
Cliente B: 'não abro mão de WhatsApp funcionando' / 'quero conhecer regiões fora do mapa turístico'. Ancoragem mínima, aventura alta. Roteiro com 30% conforto, 70% descoberta.
Cliente C: 'não abro mão de hotel limpo e silencioso' / 'quero comer onde os locais comem'. Ancoragem alta em hospedagem, aventura alta em gastronomia. Roteiro com hotéis premium + restaurantes 100% locais.
Sua agência não precisa escolher entre conforto e autenticidade. O cliente moderno comprou os dois ao mesmo tempo. A questão é em que proporção e em qual sequência. Quem souber montar essa equação cobra premium. Quem tentar empurrar um lado só vai continuar entregando cliente insatisfeito que volta dizendo que faltou alguma coisa.
Perguntas frequentes
Como descobrir a proporção certa de aventura e ancoragem pra cada cliente?
Cliente nunca pede pet-friendly, posso ignorar?
Itinerário com ancoragem fica sem graça pra cliente que busca emoção?
Fernando Alves
CMO e Founder Entur. Marketing e IA pro turismo. Skin in the game.
Co-fundador da Entur, primeira Escola de Negócios do Turismo do Brasil. Opera turismo de curadoria há 14 anos com CNPJ na mesa. Não ensina o que não testou.

